domingo, 30 de março de 2014

Em tua encosta



Se eu me estendesse em tua encosta, se eu me espalmasse, encontrar-me-ia ciente do instante e ciente de alcançar apenas um estado infinitesimal, duração verossímil ao afeto de decompor-se e de compor-se novamente, diante do todo abarcável.  Mas assim preferiria, transfigurar-me sem alvoroço, com o tempo inalienável que se corta cada vez mais rapidamente, baralhando as imagens numa composição de relações inquebrantáveis. E não mais forjaria meu destino em segredo. E não mais levaria uma vida cotidiana. Sussurrando vidas bem tratadas numa teia rala de encontros. Escondendo apenas parte do bem-querer do vocabulário para se fazer da treva silêncio e sal. Buscando na linguagem ventosa dos amantes notícias alvissareiras. E toda a cercania não valeria um pito se o pensamento em flor não se fizesse em verso. E cada caco recolhido fazendo parte de um jarro que não se estabelece se não deixar de ter-se como amarras frágeis. Desconhecendo a construção, levantar alto-mar e encarar o furor natural da ambivalência dos ânimos, sem a hostilidade das distâncias. Sabendo certo que eu me demorei em tua encosta, e que eu tenho me demorado.

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