domingo, 6 de abril de 2014

Tentando reter o inexprimível


Entendendo o que é o limite, até onde irias? Ao limite dinâmico dos corpos ou ao contorno das esferas dos corpos? Entendendo o que é o limite, isto é, o limite da ação e da potência de um corpo, poder-se-ia resgatar o timbre de sua ação ou de sua potência. Mas como seria isso, como seria estender a voz até o ponto-limite em que a corda não se parte, resgatando do íntimo o trajeto ressonante? Vociferando, poderia interpretar alguém, dando corpo ao que se segue à extensão, cortando salões aéreos e cavalgando em campos abertos à fuga. Em algum momento, haveria de ser preciso abrandar essa voz, para que na escrita, este moldável escopo, pudesse encontrar a sua outra voz, a da consciência exposta num labor de arquiteto, sendo esta, também, a mais domável? Mas haveria de ter menos liberdade aquele que segue ao fluxo de sua outra voz? Decerto não teria, quando o que só cabe encontrar é a essa voz, a sua outra voz. Abrandá-la seria mais como dar-lhe alimento e lar, e obviamente não impedindo a sua passagem a outros campos. Vociferar seria a linguagem nela mesma, em seu estado mais bruto. O limite da ostra que quer se revelar estaria na orla de uma floresta, no centro determinante de uma passagem a outra passagem, onde desconhecemos a barreira delimitadora que, se não houver engano e ilusões, poder-se-ia enfim dizer: foi aqui o meu começo, e é aqui onde termino. Equiparar-se-á a isso uma fronteira, o muro dos exilados de guerra, a parede que remete às distâncias de um a outro. A mim, equiparo a uma linha evanescente no entorno de meu corpo, que me manda boas notícias ao dizer-me que é aqui e no preciso instante em que começo e recomeço, no sem-fim de árvores que se vão erguendo desde a sua orla até a sua encosta, como na antiga promessa de guardar-se a um amante.

domingo, 30 de março de 2014

Em tua encosta



Se eu me estendesse em tua encosta, se eu me espalmasse, encontrar-me-ia ciente do instante e ciente de alcançar apenas um estado infinitesimal, duração verossímil ao afeto de decompor-se e de compor-se novamente, diante do todo abarcável.  Mas assim preferiria, transfigurar-me sem alvoroço, com o tempo inalienável que se corta cada vez mais rapidamente, baralhando as imagens numa composição de relações inquebrantáveis. E não mais forjaria meu destino em segredo. E não mais levaria uma vida cotidiana. Sussurrando vidas bem tratadas numa teia rala de encontros. Escondendo apenas parte do bem-querer do vocabulário para se fazer da treva silêncio e sal. Buscando na linguagem ventosa dos amantes notícias alvissareiras. E toda a cercania não valeria um pito se o pensamento em flor não se fizesse em verso. E cada caco recolhido fazendo parte de um jarro que não se estabelece se não deixar de ter-se como amarras frágeis. Desconhecendo a construção, levantar alto-mar e encarar o furor natural da ambivalência dos ânimos, sem a hostilidade das distâncias. Sabendo certo que eu me demorei em tua encosta, e que eu tenho me demorado.

terça-feira, 11 de março de 2014

Em vista de uma memória límpida


Esqueceste, então, que a piedade é o conhecimento da singeleza? Esqueceste da canção para Alina, de Arvo Pärt, e de Chopin...? Jamais comeste do tomate-cereja fresco sobre o muro de alguma casa da infância, e hoje não seria eu a convidá-lo para o arrebatamento da tarde, no vigor da quebra de todas as ausências. Esqueceste, então, de chorar no convés, por finalmente avistar o amor passado de tantas querências confirmado pelo ultimato do porto? Esqueceste de refazer-te em sestas, esqueceste de destruir a lucidez de gabinete na luz noturna, esqueceste de marcar com uma fina linha vermelha de sangue a pele por motivo de ciclos que beiram ao excesso da solidão pessoal, esqueceste de ver a fome nos olhar de fogo dos animais, de avistar as estrelas perdendo com isso o fôlego – sim, porque a extensão do pensamento vai até as estrelas, e os corações humanos nesse interim de teias, são capazes de suportar apenas até onde o ar os encobre sem sufocá-los, sem que a alma seja palpitada até o momento do desprendimento total.

Esqueceste, principalmente, de tudo isso.

03/02/2014

No covil das festanças



As coisas se apinham, por isso precisam ser contadas. As coisas se apunhalam, esbarram-se por um travessão, e todos os pensamentos contidos transbordam logo num fim de tarde. Prepara-te para a diversão – diz alguém -, e encontrarás a grande multidão da roda-gigante em movimento. Serão 5 ou 4 horas de inquietude, em meio a esta gente, alguns lampejos, olhares cansados, roupagens de pele desgastadas pela noite das buscas - pouco encontro, pouco encontro. Afastar-se dela, então, preferindo a clausura do ermitão – diria outro. A verdade é que o composto das horas naturalmente pode levá-lo a uma sinfonia agônica, quando não encontrado o apaziguamento da mente numa constância do pensar por um fio condutor. A crítica de como os povos se refazem em meio à festança, as rodas inebriadas pelo espírito de Baco, depois de tantos séculos, não se vê a si mesma em capacidade de mudança. Lá está – até o pico da escuridão e dos sentidos, espremido pelo calor da força das massas –, na potência das reviravoltas e no nosso cansaço esmorecido de penetrá-lo, sendo unicamente a linguagem o merecedor de todo salvaguardar.

Hoje, a exaustão só me é especialmente bem-quista quando por meio da razão alcanço as altitudes cósmicas. Cedo foi minha juventude: já não sou filha do Delírio.

Mas a roda se volta novamente contra mim. E sei que – na solidão – o regozijo de Baco também me é centelha. Fogo nos olhos, na luz pequenina.

10/02/2014

À Morelliana



Como compor um texto sobre a ordem de um suave esmeril? Em um tempo que se abre como um cata-vento a qualquer vento é preciso carregar a pena e o tinteiro numa estratégia circense, sobre a corda do equilibrista, manejando o passo sobre o cadafalso, distintamente. Da mesma forma que a corrente cria mandalas que são aleatórias para os outros, catar as palavras no pulo do peixe, deixando para os confins do mundo, a luva de borracha do falar. Esmeril, aqui, rima com centopeias e aranhas. E a lucidez de gabinete se esvai num zás, criando um refúgio de sapiência cujo refluxo vem de uma violenta pressão xamânica. Desde o que pensa ao que fala, a reconciliação do escritor viria de uma lógica desdobrada: o momento do pulo é transcendental. Não sendo mais que isto, a escrita: a possibilidade de fazer da treva ensimesmada, treva resplandecida.

Mas, se é que as palavras falseiam as intuições, há de se criar um novo degrau de realidade aberta e porosa. Tudo devém de uma convergência de dimensões irreconciliáveis, como sempre, o dentro e o fora, a rua e o interior, o tresmalhado e o âmago, por isso voltemos à corrente: um homem, só, sumário, suando sua própria realidade...

Passa o carro, não olha; passa a bicicleta, não olha; passa uma ninfa, semi-nua, ilesa, fulgor e beleza – estreito,  não olha. Então chega a Morte, anunciando dizeres: “Vai-te, pela corrente, porém a Indiferença verterá tua sensibilidade numa urna funerária, em vez de lançá-lo adiante pelos jatos violentos da criação”. Fatalmente morre, uma de suas muitas mortes. Lancinante é o violino que o parte.

18/01/2014


Breviário



Assalta-me a ideia do faroleiro. Que seria, então? Uma espécie de mastro num terreno baldio bem distante, dando a esperança do solo aos viajantes do mar. Resposta-signo à ventania que me lançaste, em certa época, ao que logo marcou este período. Não há de se culpar as pedras por serem pedras, há de chutá-las pela estrada afora, dando fim ao desejo motriz de não ser como elas. A pedra que soltei aos quatro-ventos ainda não caiu ao chão, por isso impera ainda a brincadeira do ciclope e juntamente a dos lábios que não se encontram. Deram-me, em outras épocas, palavras marcadas, que logo cravei ao peito. Delas não me desfaço, mesmo que me saltem à vista tantas outras. Com elas, não devo errar o caminho. Porque as tenho, inquebrantáveis, faço do fundo baú um depositório de objetos cintilantes, cuja luz é extensão sem tempo nem espaço. 

Não encontrei as facas da vida, sobre as quais dança quem ama, nem me cravei numa cruz, sacrifício pelo qual faria Hölderlin em sua busca pela ‘exatidão da palavra’, embora em certo momento vislumbrasse tais necessidades. A clarividência comum é tamanha, que por um momento, me proponho um breviário de obviedades. À simplicidade de uma frase, até mesmo quando tão-somente não bastava sua raiz sobreposta, se deve sempre recorrer humildemente. Da simplicidade à síntese, vice-versa.

Se de um conto sobre um faroleiro a um versado em Moby Dick vou, isso eu não entendo, mas posso inteirar-me. Duas histórias distintas podem muito bem se acrescerem. E de uma Lucía a outra Lucía, podemos ao fim conhecer apenas uma. Como ela se faz nos ciclopes da memória, tanto faz. Lucía está em Moby Dick, e a colheita de ambos, em mim.
Este é, pois, meu caos portátil. Podemos agora fumar nosso cachimbo da paz.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Poema de Paul Auster


Viático

Não culparás as pedras,
nem te verás
além das pedras, por dizer
que não esperaste por elas
antes que teu rosto
fosse pedra.
Diante de ti
e atrás, no escuro
que se move com o dia, terás
quase respirado. E teus olhos,
como se tua vida fosse nada mais
que amarga peregrinação
a este país de falta, vão se abrir
para os muros
que te trancam a voz,
tua outra voz, levando-te
às distâncias do amor,
onde restarás, mais perto
do segundo,
e mais claro, terror
de viver em tua morte, e dizendo
a pedra
em que te tornarás.